O Jogador e a Filha do Diabo

Conto de Fadas Galego

Duma vez era um homem que tinha grande fortuna mas, como era muito jogador, perdeu tudo e, quando só lhe restava em casa mil pesetas, foi e disse para si mesmo:

-Pois, para mil pesetas que me restam, jogo-as também pra ver se ganho outras mil.

E as perdeu assim como as outras.

O homem, tão relaxado como estava, foi e pediu a Deus que lhe aparecesse o diabo e

lhe desse um baralho para ganhar sempre com ele. O diabo presenteou-lhe e disse:

-Toma este baralho e vai jogar, que sempre que jogue, você vai ganhar. Só ao final de cinco anos você tem que me fazer uma visita.

Ao final dos cinco anos, o homem, com muita pena, foi a caminho para fazer a visita ao diabo, e ia chorando.

E foi então e encontrou uma senhora e conversaram:

-Para onde vai que tanto chora?

-E não vou chorar, se vendi minha alma para o diabo e agora vou entregá-la!

E disse a senhora:

-No seu caminho vai encontrar um rio, e ao rio, vão chegar quatro pombas que se despirão das suas plumas. São quatro moças que se vão banhar no rio. Preste atenção na mais branca e , quando estejam todas na água, vai e pegue suas roupas, esconda-as e não devolva até que fujam as três outras irmãs. Aconteceu tal como a senhora disse e, quando fugiram as outras três irmãs, a que restou disse ao jogador:

-Devolva a minha roupa!

-Se não me livra de dar a alma ao diabo, não a dou!

-Devolva, que vou te livrar de qualquer promessa que você fez!

Depois foi ele até o diabo, que lhe falou:

-Se fizer três coisas que te mande, fica livre. A primeira é ir plantar uma vinha, colher em seguida as uvas e me trazer o vinho para o almoço das doze.

O jogador foi chorando até a moça, que se chamava Blancaflor, e contou-lhe o que passava. Ela disse:

-Vai dormir e não pense nisso.

Nem bem adormeceu, despertou-lhe Blancaflor, que disse:

-Toma o vinho e leva até o diabo

O diabo viu o vinho e ameaçou o jogador:

-Desta você se livrou, vamos ver como se livra da outra. Agora mesmo vai plantar o trigo, regar, colher e me trazer o pão para o almoço das doze.

O jogador foi chorando até Blancaflor, que lhe disse:

– Deite, durma e espere.

E dali a pouco veio com o pão e o homem levou-o ao diabo.

O diabo olhou para o pão e falou:

– Desta vez também se livrou, mas vamos ver como vai se livrar da terceira! Você vai até o fundo do mar para trazer o anel da minha tataravó!

O jogador voltou chorando até Blancaflor. Ela disse:

– Pegue esta bacia, me corte em talhes e me jogue no mar. Tenha cuidado depois, quando voltar para a superfície. Se eu te chamar três vezes e você não me responder, estamos os dois perdidos!

Ele fez como ela ordenou e quando voltou para a superfície, seus dois primeiros berros não respondeu, só lhe respondeu o terceiro.

Ela disse:

-Pensei que você tivesse dormido! Pegue o anel e leve para o diabo!

O diabo olhou para o anel e disse:

-O que te salvou foi Blancaflor, que é minha filha.

E ficou resmungando.

Mas o jogador e a Blancaflor decidiram se casar e dormir juntos naquela mesma noite. E o diabo, quando soube, pensou em matar os dois. Mas como Blancaflor adivinhou, encheu de cuspe o quarto em que ia se deitar com seu moço. E ela e seu moço fugiram.

Chegando a noite, o diabo falava com Blancaflor e o cuspe lhe respondia e ele acreditava que ela estava lá dentro. Lá pelas duas ou três da manhã, foi e soltou um monte de navalhas sobre a cama em que os dois estariam dormindo, mas como não estavam, não os mataram, e quando o diabo foi ver se estavam mortos, viu que não havia ninguém na cama e irritou-se muito e correu para contar o que se passara à sua mulher:

Ela disse:

-Pegue um cavalo e vá atrás deles!!

Porque o diabo tinha três cavalos. Um corria como a vista; outro corria como o pensamento e o terceiro corria ainda mais. O que corria como o pensamento levou Blancaflor e o seu noivo, e o diabo pegou o que corria mais e foi atrás deles.

Blancaflor e seu noivo já estavam muito distantes quando ela disse:

-Ali vem meu pai! Estamos perdidos!

E foi e transformou-se em parreira e uvas; o cavalo na lata e o jogador em vendedor de uvas .

Quando chegou o diabo perguntou ao vendedor de uvas:

-Viu passar por aqui um rapaz e uma moça a cavalo?

– Quer uvas? São boas! Boas pra diabo, boas pra diabo!!

– Não amola!

E o diabo voltou para casa e ao chegar lhe disse sua mulher:

-Seu idiota! A lata era o cavalo, a parreira com as uvas, Blancaflor, e o vendedor o seu noivo! Corra e veja se eles ainda estão lá!

O diabo voltou a correr

Eles seguiram caminhando um tempo mais até que disse Blancaflor:

-Ali vem meu pai!

E se transformou em Igreja, o cavalo nos santos e o jogador no padre a rezar a missa.

Quando chegou o diabo, perguntou ao que rezava a missa:

– Viu por um rapaz e uma moça a cavalo?

-Rezem a missa, rezem a missa que já é muito tarde!!

-Não amola!

E o diabo voltou para casa e ao chegar disse a sua mulher:

-Ah, idiota! A Igreja era Blancaflor, os santos o cavalo e o padre o noivo de Blancaflor!

Corre e veja se ainda os alcança!

E o diabo voltou a correr.

Mas Blancaflor se transformou num braço de mar e o diabo não pode passar e voltou para casa e já não os perseguiu mais.

E do outro lado do braço de mar estava casa do jogador, e ele disse à moça:

-Vou ir na minha casa e volto logo

-Vai, mas não deixe ninguém te abraçar, porque se alguém te abraça, você me esquece!

E quando entrou na casa, abraçou-se a ele uma cadela e ele a esquece, e decidiu casar com outra moça do lugar. Então Blancaflor se fez costureira e foi costurar na vila de seu noivo e todos moços diziam que em tal casa havia uma costureira muito bonita.

E foram dois moços e o jogador e pretendiam dormir com ela.

E foi um e ela disse que sim, e quando íam se deitar, ela o mandou esvaziar uma bacia cheia de mijo e passou toda a noite esvaziando a bacia e não pode dormir com ela.

E pela manhã lhe perguntaram os outros:

-Passou boa noite? Que tal se dorme com ela?

-Muito bem, muito bem!

E foi embora.

Na noite seguinte foi o outro e , quando se ía deitar, ela mandou que ele se lavasse numa tina e ele passou toda a noite se lavando.

E pela manhã, lhe perguntou o que tinha sobrado, que era o jogador:

– Passou bem a noite? Que tal se dorme com ela?

-Muito bem, muito bem

E aquela noite foi o jogador e , quando íam deitar, ela mandou que ele fechasse a porta e ele esteve toda a noite fechando e abrindo a porta até de manhã.

E para o outro dia era o casamento do jogador e convidaram Blancaflor, que levou um cavalinho. E o cavalinho dava nas pernas do jogador, que perguntou:

– O que é isso que me anda batendo nas pernas?

E a Blancaflor falou então:

– Aqui, quando se compra uma vaca e depois se compra outra, qual é aquela vale mais, a primeira ou a segunda?

E respondeu o jogador:

-A primeira.

E naquele momento lembrou que aquela era sua mulher e disse:

-Esta é a minha mulher, porque é a primeira e foi a que me salvou.

E foi embora com ela.

(Tradução: colaboração informal por Fernanda Lacombe)